Críticas e algo mais…

SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO – SESC

Centro de Atividades de Florianópolis

Florianópolis, 04 de Novembro de 2009.

“O Grupo A Corda em Si, composto por Mateus Costa e Fernanda Rosa, foi um dos selecionados para o projeto Panorama SESC de Música 2009, durante o qual realizou uma apresentação no Teatro SESC Prainha e um pocket show ao ar livre, no SESC Florianópolis.

A formação contrabaixo acústico e voz é bastante rara, e exige dos intérpretes recursos técnicos altamente especializados, pois a ausência de acordes obriga os músicos a uma execução impecável na afinação, visto que a clareza e a dissonância das notas fica muito evidenciada no contraste entre a voz soprano e o grave do registro harmônico do contrabaixo. Ou seja, o risco de uma apresentação com deslizes é uma constante em trabalhos do gênero, e é por isso que muito nos impressionou a apresentação do Grupo A Corda em Si dentro do Panorama SESC de Música.

Não apenas tecnicamente impressionante, mas musicalmente bem acabado, com arranjos criativos e bem executados, o espetáculo foi muitíssimo bem recebido pelo público. A seleção do repertório, e o tratamento das composições para a formação proposta é um trabalho de criação muito competente, conforme atestou a curadoria do Panorama SESC de Música 2009, que salienteou que mesmo sem composições próprias, o trabalho com os arranjos exibia por si uma qualidade raras vezes encontrada em composições originais.

O SESC Florianópolis tem por princípio prezar pela qualidade e originalidade de seus espetáculos e incentivar a produção artística dos grupos locais, afim de lançá-los no cenário artístico nacional [...]“

Afonso Nilson Barbosa de Souza, Mestre em Artes Cênicas pela UDESC e Técnico de Cultura do SESC Florianópolis em carta de indicação do Grupo Musical A Corda em Si para o Circuito SESC de Música 2010.

“A Corda em Si” Um espetáculo de sentidos

Por Antonio Rossa

Nessa última década o duo “The White Stripes” virou febre mundial por conta de sua mistura de rock, pop e minimalismos estéticos.

Eles não inventaram nem o estilo nem a estética física de duo, porém enriqueceram sonoridades clássicas, propuseram formas aparentemente inacabadas (reticências para o amanhã) e deram ao público um sofisticado “menu” de influências vintagecom os olhos voltados para o futuro.

Sem uma comparação literal e direta, mas com certas semelhanças, o duo catarinense “A Corda em Si” (ouça aqui) é um exemplo de como o “mínimo”, a leveza e o vazio podem se transformar numa caldeira visceral e expansiva sonora e visualmente.

O duo catarinense, formado por Fernanda Rosa e Mateus Costa, parece ir ainda mais a fundo nessa estética minimal, onde apenas voz e contrabaixo acústico sustentam ricas melodias e sofisticadas harmonias.

Engana-se quem pensa que leveza é um mero sinônimo de calmaria ou algo similar. “A Corda em Si” viaja por novos espectros e cores, faz do vazio “material” um novo ambiente sonoro, aliás, parece transformar o vazio em uma orquestra de sentidos.

Hoje (25.09), às 20h, no Teatro Álvaro de Carvalho (TAC), Florianópolis receberá um espetáculo digno das grandes capitais mundiais. O duo apresentará o show “O Som do Vazio”, espetáculo que já percorreu 21 cidades em SC através do Circuito Sesc de Música.

Trazem novas cores ao espetáculo a estilista Adriana Cardoso, o cenógrafo Roberto Gorgati, a iluminadora e diretora de cena Elisza Peressoni, a designer Paula Cardoso e a fotógrafa Camila Lima, além das participações especiais de Eva Figueiredo (clarinente), Paulo de Tarso (Violão), Larissa Galvão (Flauta Transversal), Leonardo Flach (Violoncelo), Dimi Camorlinga (Pandeiro) e Maria Carolina (Dança).
Boa música faz bem.
Antonio Rossa – em  Transitoriamente

O Duo A Corda em Si e seu Som do vazio

Por Diogo Araujo da Silva

Apesar de não ser músico nem nunca ter observado de perto o trabalho de intérpretes, posso intuir os dilemas que marcam a tarefa de selecionar um repertório para um show ou disco. Há evidentemente idéias prévias que podem facilitar esta difícil – talvez a mais essencial – etapa da construção de um projeto.

Uma delas é muito bem conhecida pelos consumidores de música dos dias de hoje: chovem álbuns de homenagem a compositores, intérpretes e discos consagrados, onde a escolha das canções gira em torno de um conceito pra quem vê de fora bastante determinado e de fácil reconhecimento. A cantora Olívia Byington, por exemplo, fez duas belíssimas homenagens, uma a Aracy de Almeida e outra a Elizeth Cardoso, em seus discos A dama do encantadoCanção do amor demais.

Outro caminho vem da escolha de montar um repertório de acordo com uma proposta um pouco mais aberta, voltada para um gênero ou campo de pesquisa, como no exemplo do novo disco do grupo Quatro a Zero intitulado Memórias do choro paulista: a seleção de músicas foi feita a partir de uma pesquisa de grandes chorões paulistas, muitos deles desconhecidos até dos praticantes do gênero.

Ambas as posturas determinam de antemão a direção do repertório, mesmo que no fundo pareçam ser apenas uma positiva desculpa para que a música simplesmente aconteça.

O caso do duo A corda em si é igual só que diferente: fazendo uma simples reunião de canções, o “conceito” ou unidade do trabalho não é dado de antemão pelo repertório ou por qualquer outro aspecto do seu primeiro trabalho, O som do vazio. Muito pelo contrário: a medida que vamos nos aproximando, a unidade de sua proposta, tão comumente explicitada logo de saída, parece vir de uma quase provocação aos ouvintes.

Eis o ponto: mesmo que predominem canções bastante conhecidas em sua seleção, mesmo que haja uma clara preocupação pela singeleza como resultado final, o duo surpreende e desafia em praticamente todas as nuances de seu projeto.

Não que o caminho para a intimidade com estes músicos seja longo. Para quem se dispõe a ir a um ou dois dos seus shows logo se torna fácil constatar: recusando muitos lugares-comuns, cedo percebemos que há maturidade e ousadia, enormes e exemplares, percorrendo, sutilmente, toda a proposta de Mateus Costa e Fernanda Rosa.

De início nos deparamos com isto: o primeiro trabalho de um duo de baixo acústico e voz, com arranjos lapidados, de excelente nível técnico, baseado num repertório simples, de uma simples coleção de canções populares brasileiras.

Entretanto, convivendo com estes dois músicos enquanto platéia, vamos percebendo o enorme carinho e dispêndio de energia com que foi pensado todo o projeto: não por acaso o seu título é este, O som do vazio. É ele que funciona como um convite inocente a nos aproximarmos mais e mais deste trabalho, ajustando o nosso silêncio de público ao silêncio destes apenas dois músicos que, com malícia, nunca escancaram os seus segredos.

De perto vamos vendo que todas aquelas grandes virtudes que havíamos enxergado num primeiro contato é apenas o começo da história. A aparência de total delicadeza e meiguice do casal Mateus e Fernanda também é ilusória. Depois da simplicidade e do “vazio”, tudo o que há pra se enxergar é ousadia consciente, pulso firme, imensidão e mesmo agressividade em todas as doze versões de canções do projeto.

A primeira vez que os vi senti isto com evidência em uma música: a canção Béradêrode Chico César. Antes disso não conhecia esta canção já por si simples e grandiosa. Nela o A corda em si quase explicita tudo o que sabe deixar velado: no canto de garganta de Fê Rosa e no acompanhamento de imagens suspensivas e cortantes de Mateus, o ouvinte, que ingenuamente havia se deliciado com Chovendo na roseira, é incentivado a se refamiliarizar com suas próprias expectativas.

Não, o show do A corda em si não se torna de uma hora pra outra um espetáculo carregado, de emoções sustenidas: sem que soubéssemos, desde o começo tanto catarse quanto doçura se equilibravam, como que nas sombras do som. Apenas agora temos isto talvez mais explicitado.

A escolha da ordem das músicas no programa do show parece ressaltar esta procura. Um exemplo: depois de Jóia de Caetano Veloso (uma espécie de mantra sobre um poema, em versão bastante bem abordada pelo arranjo francamente agressivo) segue-se a quase melodramática Valsinha de Chico e Vinícius.

Há, no mesmo programa, também uma justificação técnica para o nome do trabalho, O som do vazio: desafiando ainda mais os imagináveis riscos da formação baixo e voz, o A corda em si revela não fazer questão do preenchimento nos arranjos. Não é preciso ser músico para adivinhar que tal concepção pode ser vista como uma heresia diante do comportamento comum dos arranjadores.

Entre tanta informação, esse texto volta a ressaltar: este papo de não-preenchimento, de simplicidade, de sorrisos pra cá e pra lá, de baixo acústico e voz feminina, de Kid Cavaquinholá vai São Francisco é tudo parte de uma grande cilada em que teimam em cair os distraídos.

Este texto é um alerta, uma acusação, talvez a revelação de um segredo ou mesmo um estraga prazeres: não nos deixemos enganar por este simpático casal de músicos – em breve disseminando suas armadilhas através do primeiro cd. Não contentes em serem plenos artistas em pleno debut, ambos parecem mesmo fazer questão de nos ferir com tanta intensidade tirada do aparentemente tão pouco, da cifra mínima da música, do som de todo vazio.

Diogo Araujo da Silva, 22 de dezembro de 2009

araujo.dl@ig.com.br   texto publicado em: www.tonsetoadas.blogspot.com

AVE A CANTORA AVE

Por Rubens da Cunha

Eu vi os olhos de uma cantora que nada via e por isso tudo cantava. Ela voou pelos palcos de minha cidade. Ave mesmo, como convém às cantoras. A seu lado, estava um homem abraçado a um contrabaixo acústico. Aquele instrumento era um corpo de madeira musical desenhando trilhas, notas, caminhos para os passos da cantora, que valsava, chovia sobre a roseira, e nos cantava sobre uma tal de Beatriz, sobre outra mulher de nome Lilly Brown, sobre uma rua ladrilhada com brilhantes e um leão menino dourando-se ao sol, além dos olhos tristes da fita chorando no gravador. A cantora que nada via dentro da visão-nada dos comuns distribuía aos ouvintes o mundo íntimo de Oxum, o mundo fraterno de São Francisco, a malandragem de um tal Kid Cavaquinho. Eram todas da amizade da cantora e do homem com contrabaixo, que gentilmente dividiram comigo.

Noutro momento, o rosto agudo, a dor aguada de um encontro tardio e salvador saiu da voz da cantora, desdobrou-se numa bailarina, que com gestos curtos, curvos, contorcionistas, se esvaía em luz sobre o palco. Não posso esquecer que o homem e seu contrabaixo musicavam a pele da cantora e da bailarina. Eram quase um sonho. Perdoem-me se não me faço entender, se o fato de eu ter visto os olhos da cantora que nada via e por isso tudo cantava me perturbou a clareza, mas é que a clareza foi tanta e a ausência de sombra corresponde sempre a uma noite de negrumes inauditos.

Pior é esta noite em minhas palavras que de nada servem, que se atrapalham na tentativa de recontar, de reconduzir a vocês o que vi. Sigo por teimosia, porque me adono da insistência de inserir seus olhares alheios nos olhos da cantora. Houve também um momento em que outros homens e mulheres surgiram. Eram da raça do homem e seu contrabaixo. Portavam instrumentos, flauta, clarinete, violão, pandeiro. Eles ajudavam o homem a construir uma trilha de som para a cantora. Talvez por isso ela estivesse descalça, para caminhar sobre as notas despejadas pelos músicos e sentir os fás, dós e sóis adentrarem-lhe a pele. Penso que seja esta a linguagem das cantoras: o corpo todo imiscuído nas notas musicais. Pelo menos das cantoras que não sabem caminhar nas estradas mais seguras. Falo daquelas cantoras em que tudo é aparência, montanhas de dinheiro, gritos, manipulação, daquelas cantoras festivas e ocas. Essa não, essa cantora era um estatuto de carne e música. Ela era um estado de doçura, tal como aquele que diz que é doce morrer no mar.

E assim foi. O tempo em que vi a cantora pode ser dividido em dois: o tempo de fora, talvez uma hora e alguns minutos. O tempo de dentro de mim: talvez algumas eternidades, em que eu também nada via porque tudo escutava. Queria que todos estivessem lá, que todos soubessem o que reverberou em mim naquele tempo em que sonhei, vaguei, atravessei instrumentos, sons, vozes, em que residi na visão da cantora que nada via e por isso tudo cantava.

CRÔNICA | RUBENS DA CUNHA

27 de outubro de 2010 – Acesse o site aqui

O Som do Vazio

Por Junior Marques – 08 de Julho de 2010

Se na noite de segunda me concedessem um desejo, este seria que todos vocês pudessem assistir o espetáculo que presenciei aqui em Maravilha.
Em parceria com o Sesc, a Secretaria de Cultura do município trouxe o grupo “A corda em si”, com o espetáculo intitulado “O som do vazio”, um duo de voz e contrabaixo acústico.

No contrabaixo, Mateus Costa traçava linhas precisas, mesclando entre harmonia e linhas melódicas, em contraponto à afinadíssima voz de Fernanda Rosa.
No repertório, obras de compositores consagrados, como Tom Jobim, Dorival Caymmi, Chico Buarque, etc. A adaptação para o formato Baixo/voz era feito pelos próprios artistas. Destaque para a música “Beatriz”, de Chico Buarque e Edu Lobo, fechando a apresentação com “chave de ouro” e deixando esse seu amigo aqui com os olhos marejados.

Além de presenciar um espetáculo não mais que perfeito, senti uma felicidade imensa por ver que mais uma luz se acende! Mais uma prova de que ainda há espaço para boa música, para música com compromisso, com sentimento, com inovação. Afinal, quer algo mais inovador nos dias de hoje, que um contrabaixo e uma voz no palco?
Uma prova de que há espaço para todo e qualquer tipo de música (sim, até porque temos que ter do que falar mal, né!!).

Toda música tem seu valor, até mesmo a música puramente comercial (que eu tanto aqui difamo) tem sua razão de ser, o problema é todos acreditarem que o único tipo de música que existe e presta é a que está no rádio, no domingão, no show da feira…
Há tantas maravilhas por esse Brasil, porque então ficarmos restritos há um ou dois estilos? Por que não buscar estilos diferentes?
É a tecla que há tanto venho batendo, não há nada de errado em preferir esse ou aquele estilo, de gostar de bailão, de heavy metal, de sertanejo. Errado é achar que nada além do que você gosta presta! Errado é ficar esperando que os outros decidam do que você vai gostar no ano que vem.

Ao final do show ainda tivemos a oportunidade de um bate papo com os músicos, e nessa oportunidade perguntei a platéia exatamente isso que questionei aqui: porque não abrir a mente pra aquilo que não está nos holofotes?
Acredito profundamente, que cada uma das pessoas que estava naquela platéia, tenha levado dentro do peito um sentimento íntimo, de que música é muito mais do que se vê por aí.
São esses sentimentos que levam nós, músicos, a questionar toda vez que surge uma nova modinha “embasbacante”.

Parabéns ao Sesc, que tem levado cultura de verdade ao povo, especialmente ao nosso querido oeste, tão carente disso!

Junior Marques - http://jrfenix.blogspot.com/

Deixar uma resposta

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Modificar )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Modificar )

Connecting to %s